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publicado em 09/02/2012
Mudanças climáticas e a estabilidade dos ecossistemas florestais
Marcos Silveira/Valderês A. de Sousa engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Florestas. A co-autora é engenheira florestal e pesquisadora da Embrapa Florestas

 

05/01/2010 - As florestas, diante do contexto das mudanças climáticas, têm um papel muito importante, principalmente no Brasil, pois somos o 4º maior poluidor do mundo, graças ao desmatamento e às queimadas. O nosso País Brasil poderia estar na 10º posição mundial, caso não houvesse problemas deste tipo. As queimadas e o desmatamento, no Brasil, ganham esta proporção porque as florestas armazenam a maior parte do carbono presente na biomassa de espécies terrestres, cerca de 50%, segundo o relatório do Intergovernmental Panel on Climate Change ou Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicado em 2007 e temos ainda uma parte importante das florestas tropicais do mundo.

A cada ano, as mudanças do clima vêm ganhando espaço na mídia e têm trazido grandes preocupações. Nos últimos treze anos, doze apresentaram as temperaturas mais elevadas de toda a história, desde quando se iniciaram as medições dos dados meteorológicos. Nas últimas cinco década, a temperatura noturna (temperatura mínima do ar) elevou-se bastante em todo o mundo. No Brasil, as temperaturas aumentaram entre 1,3 a 1,6 oC na região sul, dependendo do local. As temperaturas diurnas (temperatura máxima do ar) subiram menos, pouco menos de 0,5 oC. Em algumas regiões, no entanto, está ocorrendo o resfriamento, devido à mudança nos padrões de circulação atmosférica.

 

Como resultado da mudança de temperatura, observam-se alterações no comportamento das plantas, principalmente na fenologia. Em alguns países de clima temperado, observou-se a antecipação da época de florescimento de muitas espécies em quase três semanas, se comparado há 50 anos. Com as mudanças de épocas de florescimento e de frutificação, a relação entre as espécies tende a se alterar, levando à extinção milhares delas. No equilíbrio dos ecossistemas, algumas espécies têm papel importante, principalmente na polinização e na dispersão de sementes. A perda destas espécies traria conseqüências negativas para a sustentabilidade dos ecossistemas.

 

Segundo relatório apresentado pela UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente – “United Nations Environment Programme”)¹, a biodiversidade é resultante de processos evolutivos que ocorrem ao longo de milhares e mesmo milhões de anos, guiados por forçantes ecológicas, como o clima, os solos, o fogo, a competição entre espécies e os distúrbios naturais, sendo responsável pelo alto nível de adaptação às mudanças climáticas. Existem evidências consideráveis de que as mudanças climáticas trarão grandes perdas da biodiversidade em todas as florestas tropicais, com a quebra da complexa dinâmica dos ecossistemas, com o alto grau de especialização e nichos extremamente estreitos de algumas espécies tropicais, isto é, algumas espécies vivem em condições tão específicas que qualquer alteração pode levá-las à extinção.

 

Enquanto algumas espécies apresentam, aparentemente, um papel pouco importante nos ecossistemas, outras desempenham um papel fundamental. Porém o conhecimento para muitas espécies tropicais nos ecossistemas é inexistente. Entretanto, sob condições de mudanças, espécies antes com função pouco expressiva poderão assumir papel de maior importância. A permanência deste grupo de espécies é essencial para a capacidade de adaptação das florestas às mudanças climáticas.

 

Claramente, algumas florestas são mais vulneráveis que outras, de acordo com as mudanças projetadas para cada região. Em alguns casos, mesmo a alta capacidade de resiliência poderá não ser suficiente e as florestas poderão mudar sua forma original. A diversidade biológica presente nas regiões tropicais sugere que alguma forma de florestas continuará existindo, mesmo havendo grande distúrbio climático, mas com menor diversidade que a do presente.

 

Os modelos apontam que na floresta amazônica o clima será mais seco e com maior sazonalidade, embora as projeções sobre chuva apresentem maior grau de incerteza. A redução das chuvas e da umidade relativa poderão aumentar os riscos de incêndio florestal. Como resultado, muitas destas florestas podem transformar-se em florestas mais abertas, reduzindo os habitats, diminuindo ou até mesmo perdendo o abastecimento local de água e tornando-se menos produtivas. Se a água disponível se tornar limitante, o tamanho e a densidade de plantas serão reduzidos, pois a água controla o seu crescimento, além de haver uma mudança na composição das espécies dominantes na comunidade. As espécies com maior tolerância ao calor e à sazonalidade das chuvas dominarão as florestas tropicais e as demais tenderão a entrar em processo de extinção. Sob condições severas de estiagens, florestas podem ser substituídas por savanas, por campos ou mesmo por desertos. Algumas bacias hidrográficas, que dependem de água proveniente de degelo de montanhas, sofrerão redução da água que recebem, como é o caso da Bacia Amazônica, mudando o ambiente úmido das regiões ribeirinhas onde as espécies se desenvolvem. Os modelos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam para uma provável savanização da Amazônia, por causa da mudança no padrão de distribuição de chuvas, além do aumento da temperatura em torno de 4 a 6 oC. Outras regiões do Brasil também sofrerão, mas em menor grau que a Amazônia. A tendência do semi-árido brasileiro é de expansão e muitas zonas, inclusive, poderão passar por um processo de desertificação.

 

As florestas, conforme a extensão, também pode afetar o clima local. Existem inúmeras respostas entre a floresta e o clima, um interferindo sobre o outro. Estas respostas se dão pela mudança de albedo, alteração na dinâmica do ciclo do carbono, no fluxo de energia e na mudança de umidade. Estima-se que a perda de florestas tropicais tenha consequências para o ciclo hidrológico global, dentre outros problemas. A Amazônia é o melhor exemplo disto, a qual tem uma grande influência sobre a distribuição das chuvas em parte da América do Sul, América Central e Sul da América do Norte. As alterações climáticas estão ocorrendo de forma mais dramática que o esperado e projetado inicialmente e, com isso, os ecossistemas sofrerão mudanças bastante significativas. No entanto, é importante ressaltar que a espécie mais ameaçada com as mudanças climáticas é o próprio homem. Se nada for feito, a Terra poderá se recuperar ao longo de milhões de anos, novas espécies poderão surgir, outras, desaparecerão. O maior problema não está na Terra, mas no homem e na sua permanência nela. ¹ Forest Resilience, Biodiversity, and Climate Change. UNEP, CBD Technical Series n.43, 2009.


 
 
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