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23/06/2010 - Muito se fala sobre florestas plantadas, sustentabilidade e o conceito de empresas legalmente responsáveis com o meio ambiente, principalmente no setor de papel e celulose. Campanhas incentivando a não utilização dos papéis, como forma de contribuir com o meio ambiente surgem e, com isso, criam uma polêmica. Afinal, a utilização do papel contribui com a degradação do meio ambiente? Nesta entrevista, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Viçosa, Sebastião Valverde, explica a desinformação que existe hoje contra o consumo de papel. Seguidor e defensor de uma campanha sobre a utilização do papel, Valverde mostra a seguir sua preocupação em deixar claro que as árvores destinadas à produção de papel provêm de florestas plantadas, alinhadas com a ecologia e com a natureza e que respeitem ainda mais o equilíbrio do meio ambiente. “Com certeza, nossa indústria de celulose é a que tem de mais sustentável do mundo. Na verdade, é a mais eficiente em termos de uso dos recursos ambientais”, defende. Confira a seguir sua linha de raciocínio sobre esse assunto que vem gerando grandes discussões, principalmente no Brasil.
Celulose Online: Qual a sua opinião sobre a Campanha de Valorização do Papel e da Comunicação Impressa, que será lançada na Fiesp no próximo dia 24?
Sebastião Valverde: Na minha opinião, esta campanha é de extrema importância, haja vista as desinformações que são veiculadas na mídia televisiva, como também, infelizmente, nas escolas, contra o consumo de papel, alegando o impacto ambiental causado na produção deste, sobretudo com o absurdo de associá-lo com o desmatamento na Amazônia. Desta forma, vejo esta campanha como uma oportunidade para podermos esclarecer junto a um público seleto, formador e multiplicador de opiniões que, ao contrário do que se veiculam, nossa produção de papel é o que tem de mais sustentável no mundo, pois utilizamos de plantações florestais para a produção de celulose – matéria-prima do papel – e de um processo industrial ambientalmente correto, dentro de um sistema de gestão ambiental e de tratamento de efluentes que podemos ser considerados modelo no mundo. Além disso, praticamente para cada unidade de área de plantações florestais, recuperamos a mesma com floresta nativa, especialmente de Mata Atlântica. Desta forma, ao contrário do que tentam mostrar para a sociedade, consumindo mais papel, mais estaremos protegendo a natureza, recuperando a Mata Atlântica e preservando a floresta Amazônica.
Celulose Online: Existem ainda muitas dúvidas na população, de uma forma geral, sobre a questão das florestas plantadas e a utilização do papel. Na sua opinião, qual a orientação quanto a esta questão?
Sebastião Valverde: Há ainda que esclarecer à sociedade que nosso papel, além de "limpo", é feito com madeira de reflorestamento em áreas que já foram antropizadas, ou seja, áreas que foram desmatadas pela agricultura e que foram abandonadas ou sub-utilizadas. Desta forma, além de toda proteção das florestas nativas, nossa plantação florestal se dá em áreas que estavam em processo de degradação. Assim, temos a virtude de produzir
madeira sem competir com a produção de alimentos para o mundo.
Celulose Online: O termo sustentabilidade é um dos mais utilizados hoje pelo meio empresarial. Mas, o que é ser sustentável verdadeiramente?
Sebastião Valverde: Posso garantir que o termo sustentabilidade é um dos mais subjetivos na atualidade. Percebo que cada pessoa tem um conceito de sustentabilidade, de preferência à sua conveniência. No tocante às questões ambientais, caracterizada por uma realidade complexa, polêmica e transcendental, esta subjetividade tem gerado um clima de obscurantismo que tem sido a arma poderosa para determinadas instituições usarem nestes discursos de desenvolvimento sustentável com o fulcro de, em muitas vezes, criar barreiras não tarifárias para o comércio global, haja vista que as tarifárias têm sido impelidas pela OMC. Para nós da área de recursos naturais, sustentabilidade do ponto de vista ambiental, está intimamente ligado ao uso dos recursos naturais num nível que respeite a taxa natural de sua regeneração, ou em um nível de exploração dentro da capacidade de suporte do ambiente.
Celulose Online: O senhor acredita que grande parte das empresas do setor de papel e celulose são conscientes quanto às questões que envolvem ecologia, meio ambiente e natureza?
Sebastião Valverde: Com certeza, nossa indústria de celulose é a que tem de mais sustentável do mundo. Na verdade, é a mais eficiente em termos de uso dos recursos ambientais. Produzimos a celulose mais ambientalmente correta e a de menor custo do mundo. Certamente, isto incomoda muito nossos
concorrentes que, até então, ainda são os players no mercado.
Celulose Online: Equilíbrio do meio ambiente teria que ser hoje uma das principais preocupações da população mundial e do setor empresarial. Infelizmente, não é este o cenário. Com tantas tragédias naturais acontecendo e com o volume de informação sobre o assunto, por que a grande maioria da população não consegue enxergar essa situação? O que deve ser feito?
Valverde: Pensando em Brasil, creio que a população internalizou bem as preocupações ambientais. Nossas indústrias em geral incorporaram o
conceito de desenvolvimento sustentável, muitas delas são certificadas pela ISO 14.000. No caso das florestais, elas são certificadas pelo FSC. Enfim, certificações rigorosas universalmente reconhecidas. Por outro lado, temos que ter o cuidado de separarmos as tragédias resultantes de fenômenos naturais (terremotos, deslizamentos provocados por excessos de chuvas etc) dos provocados por ação do homem, seja no processo produtivo (vazamento de petróleo da British Petroleum) ou por ocupações indevidas (recentes tragédias no Estado do RJ), neste caso, devido a problemas muito mais sociais do que ambientais.
Celulose Online: Em relação ao consumo de papel, alguns meios de comunicação e até e-mails divulgam uma campanha contra o papel - "Antes de imprimir pense em seu compromisso com o Meio Ambiente. SAVE PAPER - Think Before You Print". Qual sua opinião sobre essa campanha?
Valverde: Minha opinião é que esta campanha vai contra os interesses comerciais do Brasil e da proteção da Mata Atlântica e Floresta Amazônica. Porque, justamente agora que o Brasil se desponta como de maior competitividade do mundo na produção de celulose e papel, é que desencadeiam uma campanha desta? Me entristece ver emissoras de TV
e entidades que se dizem ambientalistas defenderem uma campanha desta. São campanhas anti-patrióticas.
Celulose Online: No entanto, existe - uma pequena fatia - que acredita que deixar de lado a impressão e abandonar a utilização de papéis sanitários, papel-toalha e papel higiênico pode ser um ato sustentável, impedindo dessa forma a derrubada de florestas. Este tipo de campanha pode aumentar ou o senhor acredita que com o tempo elas podem diminuir?
Valverde: Na medida que nós do setor florestal e papeleiro, agirmos no sentido de esclarecer a sociedade sobre a verdade dos fatos, com certeza estas campanhas não terão mais efeito. Durante muito tempo, nós do setor florestal tivemos que combater uma campanha difamatória contra o eucalipto. Hoje,
praticamente, a sociedade já não se assusta mais quanto aos mitos sobre esta cultura. Isto demonstra que nosso trabalho de esclarecimento foi eficiente. Assim será para esta contra o nosso papel. Esta é uma campanha da "Cadeia Produtiva do Papel e da Comunicação Impressa" para informar à sociedade sobre seu compromisso com o meio ambiente e suas práticas de produção. Usando os mais diversos veículos - impressos e eletrônicos - a campanha pretende esclarecer dúvidas e, principalmente, trazer à luz da verdade algumas questões ligadas à sustentabilidade. A principal delas é deixar claro que as
árvores destinadas à produção de papel provêm de florestas plantadas. Essas florestas são culturas agrícolas, lavouras, como tantas outras. Somos um conjunto de indústrias alinhadas com a ecologia e com a natureza, ou seja, as
nossas impressões são extremamente conscientes. Hoje temos processos mais limpos do que a grande maioria das indústrias. E, mesmo assim, buscamos todos os dias novas tecnologias de produção que respeitem ainda mais o equilíbrio do meio ambiente.
Por Andrea Berzotti
Entrevistado: Sebastião Valverde
Descrição: Engenheiro Florestal, mestre e doutor em Manejo e Economia Florestal, Coordenador do curso Engenharia Florestal da UFV; autor de vários artigos publicados em periódico científico, colaborador da Comissão Parlamentar de Reforma do Código Florestal.
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