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Certificação Florestal: tendência ou entrave?

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Certificação Florestal: tendência ou entrave?

Antes diferencial de mercado, hoje as certificações são uma exigência tanto para a exportação quanto para a conquista de novos mercados. Fato é que com o passar dos anos, a certificação acabou se tornando primordial para as empresas florestais, mas em alguns casos tornou-se uma dor de cabeça devido aos entraves causados por exigências internacionais, outras por má conduta no momento da auditoria.

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15/07/2016 – As preocupações ambientais têm mudado gradativamente os padrões de consumo da sociedade. Com isto, as empresas têm buscado um novo posicionamento relativo à sustentabilidade. O mau uso dos recursos florestais, que por muito anos assombrou a atividade florestal e ainda é responsável pela imagem distorcida que uma parte da sociedade tem sobre o setor, estimulou uma reação defensiva, a instauração da certificação florestal.

Com ela foi possível identificar as empresas que manejam suas florestas obedecendo as regras compatíveis com a sustentabilidade plena. A certificação florestal configura uma ferramenta que permite a rastreabilidade das condições mais específicas de produção, extração, transporte e beneficiamento da madeira, de modo a permitir demonstrar com certeza que elas satisfazem as exigências da sustentabilidade total da empresa.

No mercado global em que vivemos, no qual a concorrência é cada vez mais forte, torna-se fundamental que as organizações demonstrem sua capacidade de integrar o tema da sustentabilidade na gestão estratégica.

Considerando a importância da certificação, é preciso saber se as necessidades impostas estão adequadas a realidade brasileira e se ela realmente proporciona benefícios às empresas.

De acordo com Ariel Evandro Fossa, gerente florestal da Lwarcel Celulose, a certificação florestal é uma ferramenta fundamental para garantir a perenidade e competitividade da empresa no mercado. “Além disto, ela proporciona credibilidade ao empreendimento perante a sociedade. Em função das exigências necessárias para obtenção da certificação, podem ocorrer também impactos positivos indiretos, como o aumento da produtividade, da satisfação dos clientes e da qualidade da mão de obra envolvida no processo”, destaca Ariel.

Contudo, Ivone Satsuki Namikawa, coordenadora de sustentabilidade florestal da Klabin e membro do Comitê de Políticas e Padrões do FSC, ressalta que é preciso entender que a certificação sozinha não vai resolver todos os problemas do setor, “mas é uma importante ferramenta para a solução”, destaca. Para a coordenadora, o processo de certificação faz com que as empresas façam uma importante reflexão sobre vários aspectos, como o social – como é o relacionamento com a comunidade e de que forma a empresa contribui para melhorias socioeconômicas – além de considerar aspectos ambientais que antes não eram solucionados.

Certificação Florestal B

Tipos de certificação

No Brasil, existem dois tipos de certificação: de Manejo Florestal, que é a verificação de uma área florestal, de forma independente, garantindo que a área florestal em questão é manejada de acordo com normativos e requisitos pré-estabelecidos; e a da Cadeia de Custódia, que é a verificação da rastreabilidade da matéria-prima proveniente da floresta em todas as etapas de transformação do produto até chegar ao consumidor final.

Segundo Carolina Nogueira, gestora de produto da APCER (Associação Portuguesa de Certificação, entidade certificadora de referência em Portugal), existem duas organizações não governamentais, sem fins lucrativos, independentes e internacionais que desenvolveram esquemas de certificação florestal: o FSC (Forest Stewardship Council) e o PEFC (Programme for the Endorsement of Forest Certification).

O sistema FSC possui parâmetros mundiais, é mantido por um fórum de participação aberta à sociedade civil e possui equilíbrio entre três câmaras compostas por representantes das áreas econômica, social e ambiental. Já o PEFC possui o CERFLOR, que está vinculado ao INMETRO. Os dois sistemas de certificação possuem caráter não governamental, voluntário, independente e possuem boa aceitação internacional, sendo atualmente considerados estratégicos para a exportação de produtos de base florestal provenientes do Brasil.

Entraves

Apesar dos benefícios já mencionados, muitas empresas encontram entraves no processo de certificação, seja do manejo ou da cadeia de custódia. Uma das reclamações frequentes são sobre as exigências e a postura dos auditores, que agem de forma inapropriada. Ivone Namikawa, da Klabin, explica que as certificadoras possuem padrões para que o processo de auditoria seja feito da forma mais simétrica possível.

“No entanto, as auditorias são feitas por pessoas, que por falta de treinamento ou por abuso de poder, cometem erros”, esclarece. Outro problema citado por ela são as questões regionais. “Existe um setor do FSC ligado a ambientalistas mais orgânicos que pregam a não utilização de nenhum químico, por exemplo. Mas sabemos que nas regiões tropicais, não só no Brasil, existem pragas que só são eliminadas com a utilização destes produtos. As formigas cortadeiras são um exemplo”, explica. De acordo com ela, existe um diálogo para que tanto a câmara ambiental quanto a econômica entrem em consenso e, assim viabilizem a atividade florestal.

Ariel, da Lwarcel, também ressalta a questão dos químicos. Para ele, devido à abrangência global da norma, a política de químicos vigente não leva em consideração demandas locais. “No Brasil, por exemplo, isso pode se tornar um problema grave no futuro, uma vez que alguns dos químicos banidos pela certificação são imprescindíveis para o combate de pragas importantes, que se não controladas podem ser responsáveis por grandes perdas”, destaca.

Outro ponto que chama a atenção do gerente florestal é a dificuldade para a certificação de pequenos empreendimentos. “Apesar de já existirem iniciativas no sentido de facilitar esse processo, seja pelo alto custo ou pela dificuldade em atender aos requisitos da certificação, ainda é difícil a inclusão desse tipo de produtor nas cadeias produtivas certificadas”, acredita.

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Tendência

A certificação florestal começou no início dos anos 1990, desta época em diante, muita coisa mudou no setor, novas práticas foram adotadas, máquinas e produtos surgiram, fazendo com que a atividade fosse se desenvolvendo com o passar do tempo. Os princípios e critérios avaliados devem acompanhar essa evolução. O FSC, por exemplo, faz uma revisão de suas exigências a cada cinco anos e, a cada três anos, faz uma reunião internacional para discutir todas as demandas do setor.

Por esse motivo, Ricardo Camargo, coordenador de plantações florestais do Imaflora, acredita que a tendência da certificação florestal é de crescimento e consolidação. “Tempos atrás a certificação florestal podia até ser considerada uma alternativa de diferencial de produto e ou de preço. Atualmente, cresce o aspecto estratégico de inserção e manutenção de mercados. Outro aspecto é que atualmente essa ferramenta representa maior importância para as exportações de produtos florestais brasileiros”, aponta.

Ele estima que em um futuro próximo a mesma importância seja dada aos mercados domésticos, principalmente se considerarmos questões relacionadas com a obtenção de financiamentos e habilitação para participação em licitações públicas ou privadas que consideram o atendimento de aspectos gerais de sustentabilidade.

Guilherme de Andrade, também coordenador de plantações florestais do Imaflora, aponta como outra tendência a inserção de produtores de menor porte (fomentados e parceiros), do setor de siderurgia e produção de energia, além do aumento da participação de fundos de investimentos na área de plantações florestais que demandam a certificação como instrumento que garante a adequação econômica, social e ambiental dos investimentos. “Já para o setor de florestas naturais a tendência é do aumento dos processos de certificação, principalmente, em áreas de concessão florestal”, acrescenta.

Como é feita a certificação?

O processo de certificação é um processo voluntário e pode ser resumido em 5 etapas:

  • Contato inicial: a empresa florestal entra em contato com a certificadora reconhecida para providenciar auditorias de certificação segundo o esquema escolhido.
  • Avaliação/Auditoria: consiste em uma análise geral do manejo, da documentação e da avaliação de campo. O seu objetivo é preparar a operação para receber a certificação. Nessa fase são realizadas as consultas públicas, quando os grupos de interesse podem se manifestar.
  • Adequação: após a avaliação, a operação florestal deve se adequar as não conformidades (quando houver).
  • Certificação da operação: a operação florestal recebe a certificação. Nessa etapa, a certificadora elabora e disponibiliza um resumo público e um certificado. Este é incluído na base de dados FSC ou PEFC/CERFLOR. É enviado um kit de marcas FSC ou PEFC/CERFLOR para a empresa certificada poder evidenciar a sua certificação.
  • Monitoramento anual: após a certificação é realizado pelo menos um monitoramento da operação ao ano. O certificado tem validade de 5 anos. Serão realizados 4 monitoramentos antes da renovação da certificação para emissão de um novo certificado.

Fonte: B. Forest / Junho de 2016

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