CompararComparando...

De gambá à cientista de jaleco branco: veja a história do mestre David C. Meissner

Lendo Agora
De gambá à cientista de jaleco branco: veja a história do mestre David C. Meissner

“Um dos aspectos da minha educação nos EUA e que trouxe comigo para o Brasil foi que a minha educação formal poderia terminar, mas que eu nunca deveria parar de aprender”

28/10/2015 – Leitor do CeluloseOnline, você muito provavelmente já deve ter visto em nosso site, nas nossas mídias ou em nosso boletim artigos referenciais sobre o tratamento de efluentes. Pois bem, o tema está sendo descrito há quase um ano por David C. Meissner, um conhecedor do setor que firmou conosco uma parceria: ganhamos em conteúdo e ele, em experiência.

david meissner 5Isso não quer dizer que David precise de mais experiência, afinal, é formado em química pela Michigan State University, nos Estados Unidos, com mestrado em química orgânica, no ITA, em São José dos Campos (SP). Além de ter colecionado conhecimentos profissionais na Inquibras, Laboratório Libbs, Promon Research Center, Wacker Chemi, e por fim na Fibria (até então Votorantim) e Centroprojekt do Brasil. Atualmente, além de escrever artigos, David tem sua própria empresa, a DCMEvergreen, uma assessoria ambiental que presta serviços de consultoria e treinamento na área ambiental, com desenvolvimento de projetos, administração, treinamento, controle e auditoria.

Então, se você quer relacionar o setor com a crise, econômica e hídrica, saber sobre a importância ambiental, os manejos, entre outros assuntos importantes, ninguém melhor do que o próprio David para esclarecer as dúvidas. Aqui, fizemos um bate papo com o consultor; veja quem ele é e o que ele pensa.

CeluloseOnline – Como surgiu o gosto pela questão ambiental?

David C. Meissner – As condições de trabalho na indústria química, tanto em relação à saúde dos trabalhadores quanto às emissões ambientais eram muito precárias quando imigrei em 1973 para Brasil e comecei a trabalhar aqui. Inicialmente, tive que aprender mais sobre o uso dos três R’s: reduzir, reutilizar e reciclar, pois, era necessário controlar as emissões ambientais no local em que eu trabalhava.

Apenas como exemplo, trabalhávamos com compostos a base de enxofre, o que gerava emissões de gases que exalavam um forte odor. Essa situação por mim vivida cotidianamente contribuiu para que eu fosse apelidado de “gambá”. Por essa e outras razões comecei a tomar gosto pela área do meio ambiente, pois sentia que poderia contribuir profissionalmente com melhorias ambientais, particularmente no Vale do Paraíba (SP), mas também em outas regiões e estados do Brasil.

CeluloseOnline – E a escolha pelo curso de química?

David C. Meissner – Desde os 12 anos fiquei fascinado com fotos de cientistas de jaleco branco trabalhando num laboratório químico com os tubos de ensaios e as colunas de destilação. Essa fascinação nunca me deixou apesar de meu trabalho na indústria Papel Simão, estar concentrado mais em um escritório ou dentro das áreas produtivas. Porém, sempre mantive contatos com os laboratórios da fábrica, trocando informações, experiências e me envolvendo com os aspectos analíticos do meio ambiente, pois, sentia que a pesquisa era vital para a proteção do meio ambiente. Quero enfatizar com isso que a proteção e o gerenciamento ambiental têm que ser fundamentada em informações físicas, químicas e biológicas.

CeluloseOnline – Como foi cursar a graduação nos Estados Unidos?

David C. Meissner – Nasci no estado de Pensilvânia, mas com 5 anos mudei para a região de Detroit, Mi. Aí, vivi uma juventude tradicional, com oportunidades educacionais muito boas, quando comparadas com as encontradas no Brasil. Todavia, não diria que foram excepcionais. Minhas faculdades, Michigan Technological University por 4 anos (MTU) e Michigan State University (MSU) por 1 ano, foram e ainda são, muito rigorosas. Numa escala de notas de 0 a 10, o aluno precisava uma média de 7 para passar o ano. Também é importante enfatizar, que não era suficiente “passar” o ano, mas sim, de obter uma nota média maior possível. Como a MTU encontra-se localizada numa península que se projeta dentro da grande lagoa Superior, (divisa com o Canadá), os invernos também forem muito rigorosos, com as temperaturas chegando ao -30°C. Este clima me ajudava a manter incentivado e com tempo para estudar!

CeluloseOnline – E como foi aplicar esses conhecimentos no Brasil?

David C. Meissner – Um dos aspectos da minha educação nos EUA e que trouxe comigo para o Brasil foi que a minha educação formal poderia terminar, mas que eu nunca deveria parar de aprender. Também a minha facilidade de ler e falar inglês se tornou valiosa. Logo percebi que era necessário incentivar os engenheiros brasileiros que eles teriam que dominar o inglês, e estar sempre aprendendo conceitos e tecnologias novas.

Os fatos específicos e técnicos que aprendi na minha faculdade acabaram deixando de ser tão importante ao longo do tempo. Mas a minha vontade e necessidade profissional de continuar a aprender é que me levou a fazer meu mestrado em química. E foi somente na ITA, que posso dizer que aprendi a estudar mesmo, e até de “gostar” de estudar. Nos EUA, estudar era uma obrigação e muitas vezes, chata. Também percebi que aprendia muito mais trabalhando em equipe, cima de problemas reais e práticos, integrando com a literatura acadêmica.

CeluloseOnline – Como você analisa a atual crise, econômica e hídrica, no país?

David C. Meissner – Como não sou eleitor brasileiro, não me sinto qualificado para comentar muito sobre esse assunto, pois nunca votei nós vários políticos responsáveis ou irresponsáveis pela crise atual. Porém, mesmo assim, vou expor alguns dos meus pensamentos.

Entendo que a crise atual em São Paulo era previsível. Numa forma geral, a falta de investimentos no tratamento das águas sempre me deixou triste. Só por exemplificar: apesar de muitas promessas, a população convive ao longo de décadas com o descaso em relação a poluição nos rios Tiete e Pinheiros. Então, entendo que não é uma questão somente do momento atual, ou qual político ou partido é responsável. Acho que todos nós (mesmo eu, brasileiro por adoção própria) temos responsabilidade de cuidar de nosso meio ambiente e educar nossos filhos e netos sobre essa necessidade. Temos que procurar informações para que possamos opinar e agir nos problemas ambientais, tanto de forma técnica, quanto de forma econômica e política.

Acho que é obrigação de todos pagar as taxas e impostos para que tenhamos água limpa e esgoto tratado, sem exceção, mas conforme as condições financeiras de cada um. Mas também é importante e nossa obrigação fiscalizar e cobrar resultados adequados no uso de nossos impostos e taxas.

CeluloseOnline – Nesse sentido, qual a importância do tratamento de efluentes?

David C. Meissner – Existe uma expressão em inglês cuja tradução pode ser: “Fora da vista, fora da mente”. Por exemplo: cada vez que damos uma descarga, o assunto será esquecido. Não deve ser assim. O tratamento de efluentes industriais é importante, mas os efluentes domésticos são de suma importância. E isso não é só para preservar o meio ambiente, mas para permitir a reutilização da água.

Citando só um exemplo: o tratamento insuficiente do esgoto doméstico pelos responsáveis na região de Mogi das Cruzes (SP), acaba acarretando mais perdas e dificuldades para a utilização da água do rio Tiete pelos habitantes da cidade de São Paulo. E por sua vez, a tratamento insuficiente do esgoto doméstico pelos responsáveis da São Paulo acaba acarretando ainda mais perdas e dificuldades nas cidades seguintes do rio.

Ainda com as tecnologias mais modernas e cada vez mais econômicas, o tratamento dos efluentes permite sua reutilização na região onde os esgotos e efluentes são gerados. A tendência deverá ser reutilizar, e não procurar construir sistemas de captação longe do ponto de uso, como a construção de adutoras muito longas. Gostaria de colocar duas perguntas e não respondê-las: A quem interesse a construção de grandes obras para transportar água? Obras de menor porte e tecnologicamente mais avançadas não poderiam atender a demanda para água limpa?

CeluloseOnline – Como foi o seu começo no setor de Celulose e Papel?

Papel Simão (Atual Fibria de Jacareí, em SP)

Papel Simão (Atual Fibria de Jacareí, em SP)

David C. Meissner – Em 1990, mesmo sem formação específica, tive a oportunidade de trabalhar como Engenheiro Ambiental na antiga Papel Simão, agora unidade de Jacareí da Fibria. No meu segundo dia de trabalho, houve uma passeata do povo da vila perto na porta da fábrica. Elas reclamavam do mau odor vindo da fábrica. Novamente, voltei de ganhar o apelido de “Gambá”! Tive que aprender rapidamente muita coisa sobre as emissões atmosféricas de uma fábrica de celulose e, também aprender sobre o próprio processo Kraft de fábrica a celulose. Tenho que agradecer muito meus amigos daqueles dias pela paciência que mostraram comigo.

CeluloseOnline – De que forma o tratamento de efluentes é importante para uma empresa do setor de Celulose e Papel?

David C. Meissner – Pelo menos as grandes indústrias do setor, estão entendo a necessidade de assumir uma posição “sustentável” frente o uso da água e o tratamento de efluentes. Antes, bastava atender as exigências legais quanto seu lançamento no meio ambiente, e fazer isso de forma mais econômica possível. Agora, a redução do uso da água na produção se torna cada vez mais importante. E com as tecnologias modernas disponíveis, não somente no tratamento do efluente, mas também nos próprios processos da fabricação de papel e celulose, a redução e reutilização dos efluentes está acontecendo. Pessoalmente, estou feliz por participar deste progresso das indústrias no Brasil.

CeluloseOnline – Como está o Brasil na questão da tecnologia utilizada no tratamento de efluentes?

David C. Meissner – Quando comecei a trabalhar na fábrica de Papel Simão em Jacareí no ano 1990 o consumo da água era mais de 120 m³ ADT para produzir cerca de 350 toneladas de celulose por dia. Agora a mesma fábrica produz quase 10 vezes mais celulose por dia, com o uso da água cerca de 20 m³/ADT. É uma melhoria muito significante, obtida pelos investimentos tanto tecnológicos quanto em melhorias gerenciais.

Os outros grandes fabricantes de celulose e papel obtiveram resultados similares ou melhores ao longo destes anos. E todas estão trabalhando e investindo em melhorias para tornar seus processos de fabricação ainda mais sustentável. No passado, os custos do tratamento de efluente muitas vezes forem minimizados e contabilizados de uma forma isolada. Agora se percebe uma tendência de integrar cada vez mais os custos do tratamento de efluentes com os outros aspectos produtivos da fábrica, como a exemplo no controle das perdas setoriais, na geração e destinação dos resíduos sólidos e no consumo e geração da energia eléctrica.

david meissner linha do tempo

Como Escoteiro (1954), Formação Colégio (1962), Químico em Brasil (1974) e OWS (2011)

CeluloseOnline

Demuth Rodapé
Qual é a sua impressão?
Amei
40%
Curti
60%
Não Gostei
0%
Sobre o Autor
Celulose Online
Celulose Online

Deixe um Comentário