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Florestal – Sebastião Renato Valverde – Compra-se Nuvens Carregadas. Tratar no Sudeste

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Florestal – Sebastião Renato Valverde – Compra-se Nuvens Carregadas. Tratar no Sudeste

c_96_96_736015/10/2014 – “I want to know, have you ever seen the rain?” Creedence Clearwater Revival

A região Sudeste está sofrendo com uma das piores estiagens já registrada. É provável que “nunca na história desta região” tenha ocorrido uma seca desta magnitude. Para piorar o que já está ruim – a velha máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar – não há qualquer previsão de chuvas a caminho, apenas chuviscos e garoas. Lembrando, também, que as últimas previsões falharam em cheio.

Há dois meses, no mínimo, venho relutando em escrever esta matéria, pois imaginava que se chovesse ela nada acrescentaria, haja vista a memória “relâmpago” do brasileiro. Mas, considerando a situação crônica e sem quaisquer perspectivas, resolvi redigi-la.

Não é o Juízo Final, mas beira ele. E olha que não sou pessimista e catastrofista. Porém, infelizmente, no sudeste as nascentes, as pastagens e os cursos d´água estão secando, as hidroelétricas se desligando, os incêndios florestais se espalhando, os animais morrendo e os municípios decretando racionamento, tendo várias escolas cancelado as aulas. Paisagens desoladoras no campo, forçando os poucos que ainda residem no meio rural a migrar para as saturadas cidades. Nos lembra Mad Max. Hoje, o povo do sudeste sente na pele um pouco daquilo que os nordestinos convivem anualmente.

Esta seca também expõe as feridas na natureza. Solos nus, erosão e voçorocas aos montes, pastagens degradadas, extensas áreas sem proteção florestal, sobretudo as de função hidrológica. Várias bacias hidrográficas destruídas.

Embora alguns leigos e, até mesmo, “pesquisadores de renome” insistem em afirmar que este fenômeno se deve ao aquecimento global e, ou, às mudanças climáticas por razões antropogênicas, na verdade ele é fruto do efeito El Niño. Logicamente, não é o distrato humano com o meio ambiente o responsável por este efeito, mas ele é o único e exclusivo réu no agravamento das consequências deste efeito.

Certamente, se ao revés de um desmatamento generalizado, tivessem protegido as cabeceiras dos morros, as áreas de recarga hídrica, as nascentes e as margens dos cursos d´água, provavelmente, os efeitos desta seca seriam amenizados. Errou-se no ordenamento territorial e está se pagando por isso. Entretanto, não adianta “chorar o leite derramado”. Tem que agir no sentido de recuperar e de evitar que outras degradações ocorram. Há que mudar a lógica da política de proteção ambiental adotada no Brasil. Sair desta retórica, paranoica e fiscalista, que é hoje e agir de forma efetiva e pragmática.

Falhou-se com relação ao ambiente? Sim. Talvez, culposa e inevitavelmente, dada às circunstancias da época, pois era o que se tinha como modelo de uso e ocupação das terras, de deficiência tecnológica na agropecuária tradicional e devido, também, a pobreza rural generalizada nesta região de 1980 à 2000 que contribuíram para destruir as florestas.

Falhou-se, mas nada impede de reparar. Profissionais competentes e capacitados para isso estão disponíveis. Nada de acreditar que as leis e os instrumentos de comando e controle irão reverter esse caos no campo e nas cidades. Até porque, boa parte desta destruição ocorreu e ocorre à luz da legislação. O fato de ter errado no passado, não significa que a reação para proteger o pouco de floresta que resta seja proibir, de forma burocrática, policialesca e fiscalista, tudo que se propõe a fazer e usar dos recursos naturais.

Por exemplo, dificilmente um produtor consegue autorização do órgão ambiental para manejar uma floresta ou construir um barramento na propriedade. Apesar das consequências do desmatamento em agravar esta estiagem, entretanto, paradoxalmente, muitos municípios – vide Viçosa, MG – estão sendo abastecidos com água vinda de lagoas das propriedades rurais. Bizarrice à parte, produtores que são tratados como vilões pelos órgãos ambientais, são quem abastecem as cidades via barramentos feitos ilegalmente, pois, ainda hoje, são impedidos de serem construídos. Isto prova excessos de ambas as partes. De uma, devido aos produtores terem excedido no uso da terra e, de outra, os técnicos dos órgãos por agir, de forma míope, reativa e subserviente aos desmandos das Ongs, em proibir qualquer tipo de ação e construção no meio rural.

Os barramentos são fundamentais para o equilíbrio do balanço hídrico, sobretudo com esta imprevisibilidade no clima em virtudes dos fenômenos El Niño e La Niña. São eles (barramentos) que, construídos corretamente, vão proteger os municípios contra as enchentes durante o período chuvoso e que, no período seco do ano, irão abastecer as cidades. Radicalismo, independente de que lado for, só atrapalha.

Os prejuízos desta seca estão ai. No nível que chegou a água nos reservatórios, principalmente os das hidroelétricas, precisar-se-ão de alguns anos seguidos de “dilúvio”. Os reflexos disso já estão na conta de luz e na competitividade das indústrias eletro-intensivas, como nas metalúrgicas de ferro-ligas e silício metálico. Em que pese os prejuízos desta seca e, com isso, a elevação no preço da energia, é fato que isto já está sinalizando a viabilidade econômica, até no longo prazo, das termoelétricas a biomassa florestal. Nesse caso, as plantações florestais, que hoje encontram sem mercado para destinação da madeira, agradecem.

Entretanto, independente das vantagens e desvantagens comerciais, a condição, única e necessária, é que precisamos recuperar o ambiente e adotar de vez a bacia hidrográfica como unidade de manejo e de planejamento do uso da terra e criar sistemas integrados de reservação superficial e recarga de aquíferos. Do contrário, o recado que esta seca está dando é apenas uma “amostra grátis” de um remédio amargo ainda aplicado via oral, mas que, se hesitarmos, será endovenosa. Não precisa chegar a situação de paciente terminal.

A questão é como reverter esta situação degradante em que se encontra o ambiente na região sudeste se não há uma política específica para subsidiar os produtores rurais para recuperar as cabeceiras e as nascentes e proteger melhor as margens dos cursos d´água. Não será por pressão e nem por balela de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) que eles irão reverter este caos. Quem viver, não só verá, como sentirá na pele.

* Sebastião Renato Valverde é professor de Engenharia Florestal na UFV (Universidade Federal de Viçosa)

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Sebastiao Valverde - Florestal
Sebastiao Valverde - Florestal
é professor de Engenharia Florestal na UFV (Universidade Federal de Viçosa)
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