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Florestal – Sebastião Renato Valverde – Geni e o Zepelim Florestal

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Florestal – Sebastião Renato Valverde – Geni e o Zepelim Florestal

Assim Caminha a Humanidade (George Steven, 1956) neste Mundo Sem Fim (Ken Follet, 2007)

29/07/2015 – Desde que se entende por gente tem sempre os “espertinhos” querendo tirar vantagem alheia. Infelizmente, este perfil “gersoniano” está impregnado no DNA de muitas pessoas. Parece que lutar contra é o mesmo que “malhar ferro frio”, dado que é o trilho da evolução escolhido pela humanidade e a essência do capitalismo.

Certo ou errado, irreversivelmente este é o trem da vida que incita o Bem-Estar e o progresso tecnológico, mas que se descarrilha gerando as desigualdades e, consequentemente, suas mazelas sociais atreladas.

Sempre que a humanidade muda de um cenário – em que não se tem mais onde evoluir – para outro, para alguém ficar melhor, outrem há de perder. Identicamente, é duro de enfrentar este Pareto Ótimo. Desde que haja um revezamento nesta relação ganha-perde, ou seja, quem perde hoje, ganha amanhã e vice-versa, sem problema.

Entretanto, esta alternância não é a realidade, pelo menos no meio rural. No agronegócio e, sobretudo o florestal, o segmento que perde só tem um endereço, o do produtor.  Tem sido assim desde o fim da ditadura. Os proprietários têm arcado com um ônus altíssimo para produzir fibras e alimentos. Além de penar com as incertezas do clima e do mercado e de tentar driblar a Lei de Murphy, eles têm sido culpados por toda desgraça ambiental. Virou a Geni do campo. São apedrejados pelos ambientalistas urbanoides, os mesmos que fingem de “mortos” das moléstias urbanas sob seus olhos.

É desestimulador a profissão de produtor. A partir de 2008, quando deflagrou a crise internacional, os produtores florestais têm convivido com uma realidade sinistra. Quando encontra mercado para seus produtos, o preço é vil. Iludido, acreditou que no futuro faltaria madeira e demais produtos florestais, resta-lhe, atualmente, frustrações.

Quantos, ainda no ventre maternal ouviram que seringueira e plantações florestais são bons negócios, excelentes investimentos no longo prazo? Pois bem, o futuro chegou, já morreu e essa previsão não se concretiza para os produtores. Desiludidos com o mercado, todos sabem que, se nada for feito, o futuro do futuro também não se realizará.

Mercado é mercado. Sempre o comprador quer pagar menos que o valor ofertado por quem produz e, este, vender por mais que aquele quer pagar. Assim foi, é e sempre será. Em que pese este corolário, não se quer defender a reserva de mercado, mas, menos ainda aceitar que o produtor seja o único a suportar a parte péssima do “ótimo de Pareto”.

Como o mercado florestal possui características próprias que o difere do das commodities agrícolas, principalmente as negociadas em bolsa, tem-se no caso florestal um mercado altamente concentrado devido à verticalização das indústrias florestais que produzem, desde a madeira até o produto industrial. Ao revés, as agroindústrias que não possuem terras, compram matérias-primas nos mercados, seja spot ou de contrato futuro.

No entanto, por circunstâncias legais e conjunturais de 1960 a 1980, as indústrias florestais não tiveram escolha, a não ser se verticalizar para proteger seu abastecimento, trazendo consequências para o campo. Elas têm que buscar na parceria empresa-produtor seja via fomento, arrendamento ou contrato futuro, uma alternativa a esta concentração que gera distorções na comercialização e dificulta a competição perfeita.

Do contrário, com o modelo de governança que ai está, não há e nunca haverá harmonia na comercialização dos produtos florestais. Quando não é um monopólio, é um oligopólio, mais, corretamente, oligopsônico. Se há aumento nos preços dos produtos industriais, estes não são repassados ao insumo florestal. Quando sim, após meses de defasagem. Se há queda, é descontada imediatamente no valor dele.

Quando o problema não é a concentração do mercado, é a desorganização dos produtores. Se a “Lei de Gerson” atenta contra os produtores organizados, quiçá nos desorganizados. As garras da globalização não poupam nem os segmentos fortes.

O fato é que, se indústrias e produtores mudarem a compostura e passarem a agir de forma transparente e organizada, todos compartilham, pois a competitividade florestal brasileira é forte. É repugnante a situação em que o produtor é sempre o perdedor.

Não é moralmente justo uma empresa com margem de lucro significativa, usurpar do produtor florestal pagando pela matéria-prima um valor abaixo do preço de nivelamento. Indústrias do ramo de celulose, ferroligas e painéis de madeira possuem todas as condições para constituir um modelo de governança focado na parceria robusta com o produtor. Até mesmo as siderúrgicas integradas tem esta primazia. Diferente das guseiras independentes que não se desenvolveram culturalmente para tal.

Talvez, se houvesse uma relação coesa entre as guseiras e o produtor de carvão, ambos suportariam melhor os efeitos da crise global e o País estaria numa situação diferente da atual em que não se tem, sequer, 35% dos altos-fornos operando. Parceria tem que ser de “mão dupla”. Fornecedor e consumidor tem que se entender. O que não pode é um tentar tirar proveito do outro e, no final, todos se lascam.

Vide o mercado da borracha natural. Qual a justificativa para o preço aviltado dela, haja vista que o Brasil importa mais de 70% da sua demanda, a oferta internacional encontra-se estagnada, o preço dos pneumáticos elevados e o custo da borracha é insignificante no do pneu? Era para estar melhor. Algo de estranho há nesta transação.

Sinal disto é a reação que o mercado exerce na Política de Garantia de Preço Mínimo (PGPM). Até ela, o preço do coágulo oscilava em R$2,00/kg. Bastou o governo implantá-la, assegurando o complemento do preço toda vez que ele caísse de R$2,00/kg, que o mercado, coincidentemente, passou a pagar abaixo deste valor. Nas principais regiões produtoras ele está R$1,55/kg. Há um jogo baixo que força os produtores a buscarem, após uma romaria amarga e burocrática nos órgãos oficiais, o complemento.

Tudo bem que o País é grande e que há espaço para todos que tem interesse em produzir no campo, assim o é para os Fundos de Investimentos que tem assumido, via contrato de parceria com as indústrias, o papel de produtor de madeira. Não tenha dúvida que o futuro reserva graves atritos sociais (Zepelim) sobre esta concentração de terra e o alijamento dos produtores tradicionais na cadeia produtiva. Isto já ocorreu de 1990 à 2000 quando as ONGs e os movimentos sociais elegeram a monocultura florestal como vilã etno-ambiental. Naquela época, o setor florestal suplicou ajuda dos produtores. Não dá para viver de “… pedras…, bostas… e… beijos…”. Também já passou da hora dos produtores deixarem de ser Geni e se organizarem em associações efetivas.

Sebastião Renato Valverde Thumb* Sebastião Renato Valverde é professor de Engenharia Florestal na UFV (Universidade Federal de Viçosa)

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Sobre o Autor
Sebastiao Valverde - Florestal
Sebastiao Valverde - Florestal
é professor de Engenharia Florestal na UFV (Universidade Federal de Viçosa)
1Comentários
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  • Heiko Rossmann
    agosto 11, 2015 at 10:36

    Prezado Valverde,
    Primeiro, gostaria de parabeniza-lo pelo artigo! Deve retratar, de fato, o que ocorre no setor florestal. Porém, receio que a sua leitura do mercado da borracha natural esteja equivocada. Em minha opinião, após a implementação da PGPM ocorreu um ajuste do preço no campo. Caso contrário, o nível de endividamento das usinas de beneficiamento seria ainda maior. Prova da incoerência dos preços praticados nos últimos anos é o número de beneficiadoras que fecharam suas portas e, não fosse o PEPRO, outras que teriam suspendido suas atividades esperando que o mercado reagisse. A situação do produtor é ruim sim, e das usinas também. Um comentário como o seu só faz alimentar a desconfiança dos produtores frente às usinas de beneficiamento, e em nada contribui com o desenvolvimento do setor de borracha. Lamento que, mais uma vez, tenha partido da UFV – onde eu nasci como profissional – uma opinião sobre o setor heveícola que considero desvirtuada.

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