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Florestal – Sebastião Renato Valverde – Psicotrópico para a Ressurreição Mitológica Florestal

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Florestal – Sebastião Renato Valverde – Psicotrópico para a Ressurreição Mitológica Florestal

c_96_96_736013/04/2015 – Durante anos, as plantações florestais foram alvo de críticas infundadas sobre possíveis impactos sociais e ambientais. Estas foram sustentadas por preconceitos ideológicos de certas minorias autoritárias, raivosas e sórdidas que insistiam na hipótese de que tais plantios secavam o solo, acidificavam o terreno, empobreciam a terra, afugentavam a fauna, entre outras sandices maquiavélicas.

Certamente, quando iniciaram os reflorestamentos no Brasil, havia vácuos sobre o conhecimento deste assunto que acabaram induzindo as pessoas – com a louvável preocupação ambiental – a acreditarem nestas críticas. Porém, boa parte dos críticos visava apenas dividendos políticos e financeiros.

Como enfrentamento destas insanidades, as lideranças do setor florestal promoveram uma força-tarefa para desmitificação dessas crenças por meio de palestras e publicidades. O êxito foi tal que as críticas diluíram-se. Entretanto, a seca que assola o sudeste brasileiro e suas regiões lindeiras ressuscita algumas condenações à silvicultura, sobretudo às relacionadas aos recursos hídricos. Fato que exige da academia uma explicação mais robusta e convincente.

É lógico que nada se compara às funções ambientais de uma floresta nativa, assim como não procedem quaisquer comparações entre o papel da plantação florestal com o da agricultura, haja vista que os produtos florestais e os agrícolas não são excludentes entre si. São ambos, sem se apegar a status de supremacia, vitais ao bem estar social.

No entanto, se considerar que, desde 1990, não se desmata para reflorestar nestas regiões, pois só se planta onde há pastagens subutilizadas – que no Brasil excede a 30 milhões de hectares – dificilmente a introdução da silvicultura piora qualquer cenário social, econômico e ambiental. Pelo contrário, só melhora.

O fato é que, nestas áreas subutilizadas, reina a degradação generalizada. Se considerar que não se substitui culturas de curto prazo rentáveis pela silvicultura de ciclo longo, a implantação florestal resulta em benefícios para o ambiente e a comunidade.

A plantação florestal, na maioria dos casos, consome a quantidade de água excedente ao que ela deposita no solo comparada com a vegetação que ela substituiu – geralmente, pastagem em péssimas condições. Obviamente, um péssimo manejo florestal também pode resultar num prejuízo ambiental, porém, algo que não deve ser creditado a ela (plantação florestal), mas sim ao modus operandis equivocado.

Ao revés, um bom manejo florestal resultará em melhorias significativas no tocante ao regime hídrico local e ao aumento da produção de madeira proporcional à disponibilidade de água. Em geral, o balanço hídrico resultante pelas plantações florestais é positivo, haja vista que elas consomem menos que o que armazenam no solo.

Ainda que as plantações florestais, como outras culturas, absorvam grande quantidade de água, sobretudo as espécies do gênero Eucalyptus, sabe-se que nenhuma outra espécie é tão eficiente por litro de água quanto às deste gênero. Outras espécies consomem menos, porém dependeriam de uma área muito maior que os atuais 6 (seis) milhões de hectares para produzir a mesma quantidade de madeira.

Mito ou fato, o importante é que este assunto seja exaurido pela comunidade técnica e científica florestal para que não fique “pedra sobre pedra” sobre o mesmo. Urge que se crie um grupo multidisciplinar formado por professores, pesquisadores e técnicos para trabalhar com a temática das plantações florestais e suas relações com a água, biodiversidade, fauna, comunidade, etc., antes que um aventureiro deturpe os fatos.

Entendendo que o perfil topográfico predominante no, agora seco, sudeste brasileiro assemelha-se à imagem de uma bacia hidrográfica, a formação de um mosaico florestal constituído de talhões manejados sob rodízio anual, respeitando as áreas de preservação permanente, refletirá em ganhos hidrológicos significativos, caso a bacia fosse ocupada com pastagens, mesmo que bem manejadas. O que não significa aboli-las da paisagem, pois, hipocrisia à parte, a humanidade depende, ad eternum, de leite e carne.

A cobertura florestal, sobretudo a partir do segundo ano de plantio, diminui o impacto da gota da chuva no solo que é interceptada pela copa e pela serapilheira, possibilita a infiltração, diminui a vazão máxima das chuvas na bacia e evita erosão. Consequência: aumento do estoque de água no solo e regulariza a vazão.

Não precisa ser Engenheiro Florestal para saber que a conversão de pastagem em floresta diminui o escoamento subsuperficial e aumenta a recarga no lençol freático. Mas, para praticar a silvicultura em conformidade com os princípios do bom manejo das bacias hidrográficas é fundamental a presença deste Engenheiro.

Enfim, sabe-se o quanto é desgastante conviver com estas agruras mitológicas contra os reflorestamentos. Haja paciência! Pior ainda é imaginar que tais mitos e crendices foram a essência hermenêutica para a constituição de boa parte das legislações que atravancam o progresso do setor florestal. Vide a norma do licenciamento que, por asnice, classifica a atividade de silvicultura como de Médio Impacto, obrigando-a a passar por todo processo cartorial, burocrático e oneroso do EIA/RIMA.

Só de pensar nisso, dá um calafrio. Mas, há que se lutar sem perder a ternura nesta guerra ideológica, cabendo a cada floresteiro, sem o uso de barbitúricos, debater de forma franca e clara a ressurreição destes mitos. Informações convincentes e robustas têm de sobra. Basta investigar.

 * Sebastião Renato Valverde é professor de Engenharia Florestal na UFV (Universidade Federal de Viçosa)

 

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Sobre o Autor
Sebastiao Valverde - Florestal
Sebastiao Valverde - Florestal
é professor de Engenharia Florestal na UFV (Universidade Federal de Viçosa)
2Comentários
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  • Hans-Jürgen Kleine
    abril 16, 2015 at 20:26

    Parabéns pelas colocações lúcidas e bem formuladas. Gostei do termo “plantações florestais”, que a meu ver substitui com vantagem o termo “florestas plantadas”.

  • João Alberto A. Ribeiro
    abril 17, 2015 at 12:48

    Professor Sebastião Valverde,
    Obrigado pelos seus, sempre oportunos, comentários. A linguagem simples e direta que usas, facilita o entendimento dos leigos e resistentes a realidade.
    Ainda temos que vencer algumas barreiras que temos entre nós profissionais da Engenharia Florestal e, não fosse isso, poderíamos estar, há pelo menos, 30 anos a frente da degradação e da crise hídrica (opinião minha).
    Sds.,
    João Alberto

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