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Modelo de gestão atual deve ir além do tripé econômico, social e ambiental consagrado pela sustentabilidade corporativa

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Modelo de gestão atual deve ir além do tripé econômico, social e ambiental consagrado pela sustentabilidade corporativa

06/05/2015 – A edição 2013-2014 do relatório O Estado do Futuro, iniciativa que integra estudos de grande impacto sobre a humanidade e o planeta, aponta 15 desafios globais que se impõem à sociedade atual, relativos a: mudanças climáticas, água, população e recursos, democracia, longo prazo e decisão, convergência das tecnologias de comunicação e informação, exclusão social, saúde, educação, paz e conflito, condição da mulher, crimes transnacionais, energia, ciência e tecnologia, e ética global. Atualizado em 1996 pelo Projeto Millennium, rede de pesquisa a respeito do futuro, o relatório apresenta desafios interdependentes, sem nenhuma ordem de prioridade ou importância. “A lista estabelecida por um grupo de pensadores reunidos em torno do futuro do mundo sugere perguntas a serem respondidas por meio de soluções”, esclarece Rosa Alegria, vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro (NEF) e codiretora do Projeto Millennium no Brasil.

Entrevista Modelo de Gestão (4)

Entre as tantas perguntas de “como” elencadas em cada desafio, o relatório propõe-se a indicar caminhos viáveis para as soluções. “Gosto do que falava Peter Drucker, o futurista do management: ‘Melhor do que prever o futuro é criá-lo’. Não nos propomos a fazer previsões e correr o risco de direcionar decisões, mas sim organizar dados de várias fontes secundárias, que, uma vez analisados, trazem com clareza a situação presente relacionada com indicadores que apontam para um futuro positivo ou negativo”, afirma Rosa, reforçando que as informações se baseiam em evidências.

A vice-presidente do NEF e codiretora do Projeto Millennium no Brasil informa que o retrato do mundo apresentado no relatório e sintetizado nos desafios constitui um plano estratégico global que visa mobilizar todos os setores da sociedade e estabelecer redes de diálogos globais entre executivos, governantes, educadores, jornalistas, acadêmicos, religiosos e outros atores sociais planetários. “Muitas dessas questões globais ainda não encontraram respostas, mas já há uma certeza: diante de tantos e profundos dilemas, é chegada a hora de identificarmos forças e capacidades de transformar a condição do planeta, elevando nosso nível de consciência, num eterno e permanente despertar.”

Na entrevista a seguir, Rosa sugere mais do que uma reflexão sobre os desafios listados no relatório. Ela indica onde se encontram os atuais gargalos, enfatiza o papel dos líderes nesse demandante processo de transformação e aborda o lançamento do Programa Lideranças Inovadoras para a Sustentabilidade (LIS), concebido em parceria pelo NEF, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pela Cátedra Ignacy Sachs. Dirigida aos profissionais de diversos setores, o curso tem como proposta pedagógica oferecer ao participante a possibilidade de vivenciar uma série de dinâmicas de aprendizagem.

O relatório O Estado do Futuro aponta que a humanidade tem ideais e recursos para atender aos desafios globais impostos atualmente. Quais são, contudo, os gargalos ainda vistos nas diferentes áreas envolvidas nas soluções desses desafios: liderança, políticas públicas e modelos de gestão?

Entrevista Modelo de Gestão (1)Rosa Alegria – Isaac Asimov, um dos mais importantes pensadores sobre o futuro, dizia que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente do que a sociedade ganha em sabedoria. Para mim, o que falta para acelerarmos a mudança a tempo de nos salvarmos de tantas ameaças múltiplas que nos confrontam é darmos um passo além do conhecimento e da informação.

Já sabemos tanto, estudamos intensivamente, somos capazes de criar tecnologias que até dez anos atrás não se podia imaginar. Enfim, não há dúvidas de que somos capazes de trazer soluções para o mundo.

Mas por que o mundo está como está? Porque ainda fazemos escolhas erradas; não porque não sabemos o que precisa ser feito, mas por não estarmos verdadeiramente dispostos a mudar pensamentos e estilos de vida. A mudança verdadeira, que poderia ser um dos desafios do Projeto Millennium e também a mais importante, é a de modelos mentais que hoje assinam tratados, decidem por milhões de pessoas, lideram para perpetuar velhos modelos. Citando outro pensador, o gênio do século XX, Albert Einstein, dizia: “Não podemos resolver problemas com o mesmo tipo de mentalidade que os gerou”.

Na sua visão, as políticas públicas e as legislações vigentes são fatores determinantes para uma conduta ambientalmente sustentável por parte do setor privado? De que forma as leis podem alavancar ou incrementar ainda mais esse processo urgente de transição?

Rosa Alegria – Certamente o são, visto que o poder público é quem pode direcionar esforços, reprimir condutas equivocadas e incentivar ações e iniciativas na sociedade. Ainda falta, no entanto, acontecer um efetivo alinhamento entre as demandas das sociedades, a condição ecológica e os interesses do sistema econômico. Enquanto não houver esse equilíbrio, realmente não vamos criar a mudança necessária para que as futuras gerações possam desfrutar vidas felizes, dignas e seguras. É vital reorientar a lógica do sistema econômico: em vez de privilegiar uma pequena parte de pessoas (principalmente acionistas e investidores), deve estar a serviço do bem comum, favorecendo o lucro compartilhado, o planeta e as pessoas.

É importante também destacar que as políticas públicas são forjadas por dirigentes de países, e o alcance de ações globais depende, muitas vezes, de um alinhamento que não privilegia a vida, mas sim interesses que em grande medida não contribuem ou até mesmo comprometem a promoção do bem-estar da humanidade. Por isso os modelos de gestão dos negócios devem incorporar a sustentabilidade e estabelecer processos e práticas de governança que estejam ancorados em preceitos essenciais, como valores, missão e visão de uma organização comprometida com o bem comum. Nesse contexto, como a gestão é feita por pessoas em papéis de lideranças, essas devem sustentar-se e ir além do tripé econômico, social e ambiental consagrado pela sustentabilidade corporativa, investindo no conhecimento de si mesmas.

Focando nos líderes à frente das empresas, quais seriam as posturas ideais diante de um cenário que exige inovação e sustentabilidade simultaneamente?

Rosa Alegria – A melhor postura que um líder do século XXI pode adotar em resposta ao atual cenário é a busca por ampliar seu entendimento, aguçar seus sentidos e dialogar com as demandas que chegam, antes de oferecer respostas e soluções. Será no diálogo com a sustentabilidade que surgirão as soluções mais inovadoras para a vida e para o planeta. Como nos lembra Edgar Morin, essa é a via que levará a humanidade a um futuro seguro. Ao mesmo tempo, lidar com os desafios atuais exige outro modo de pensar e uma lógica mais sustentável de fazer negócios, em que, por exemplo, se perceba e maneira holística as relações entre as coisas. Um modelo de sociedade, de produção e de negócios que tem como meta o consumo crescente traz implicações nefastas para a humanidade, ao se constatar o declíniode recursos naturais, a geração de resíduos e a baixa reciclagem, por exemplo. Nesse contexto, liderar significa muito mais do que administrar; impõe uma necessidade de harmonização entre o que se faz e o que se é. O autoconhecimento leva à percepção da interdependência entre o que somos e a natureza, revelando possibilidades mais amplas em nossos próprios sentidos e intuição – ferramentas capazes de nos levar a criar soluções e inspirar as pessoas.

Entrevista Modelo de Gestão (3)

O Programa LIS surgiu a partir dessa necessidade de fortalecimento de um novo conceito de gestão? O que o define e quais são os meios de aprender a colocá-lo em prática?

Rosa Alegria – A gestão das organizações, especialmente dos setores privados e públicos, está contaminada por uma visão de produtividade e de fazer negócios que gera graves problemas para o mundo. Há necessidade de mudança, de se efetivarem novos marcos para uma gestão competente, que passa pela valorização do entendimento dos negócios em ciclos mais extensos, focados em longo prazo, e pela prática no cotidiano. O Programa LIS nasce na esteira das transformações que estão ocorrendo no mundo, numa sociedade cada vez mais conectada, e também dos desdobramentos que impactam o ambiente econômico global. Essas mudanças vão exigir não só uma nova forma de gerir as organizações, mas outras maneiras de governar e até mesmo novos pactos, que respondam aos anseios e às cobranças de uma sociedade mais informada, consciente e atuante. Uma liderança inovadora precisa criar com um olhar voltado para o futuro do planeta, atuar tanto com a escassez de recursos quanto com a dificuldade de destinar os resíduos do que se produz. Além disso, precisa estar comprometida com o atendimento das carências de um planeta em múltiplas crises. Para enfrentar esses desafios, é necessário que o líder inovador tenha seus sentidos ampliados para ver além, saber escutar, discernir o que vem do coletivo e, por fim, aprender a dialogar, a colaborar e a cocriar.

A visão do líder tende a tornar-se ainda mais essencial para garantir uma posição competitiva da empresa no mercado? Ou seja, nos próximos anos, a postura e as condutas dos líderes serão mais determinantes para o sucesso (ou fracasso) das empresas em um ambiente sustentável?

Rosa Alegria – Sim. A visão da liderança continua sendo essencial para o direcionamento das organizações, porém o grande desafio hoje não está em garantir apenas uma posição competitiva no mercado, aspecto para o qual a maioria dos líderes empresariais foi preparada nas escolas de negócios do século passado. O que se coloca para o líder empresarial deste nosso tempo é encontrar seu espaço comparativamente sustentável em um ambiente de mercado competitivo, no qual todos disputam o mesmo lugar. Conquistar a confiança de seus parceiros, clientes e demais stakeholders é o que vai determinar o sucesso de seus negócios. Para isso, o líder que busca construir a longevidade lucrativa dos negócios precisará ter mais que uma visão aguçada. Ele deverá aguçar todos os sentidos e praticar diálogos permanentes com instâncias para além do próprio mercado. São esses diálogos – muitas vezes a envolver até outros públicos, como concorrentes – que o ajudarão a encontrar caminhos de cooperação para forjar a sustentabilidade dos seus negócios, da sociedade e do meio ambiente onde está inserido.

A senhora acredita que os grandes players de diferentes segmentos industriais já estão atentos a esse processo de mudança ou a percepção ainda não é muito clara?

Rosa Alegria – Muitos já atentaram, sim. Percebe-se que há algo novo no ar, uma mudança em curso que vai exigir transformações. Poucos, porém, são os que percebem a amplitude e as implicações das mudanças que a questão da sustentabilidade vai exigir de suas empresas e também de suas próprias vidas. Sustentabilidade não combina com superficialidade, apesar da rima entre as palavras. Essa falta de entendimento é natural se pensarmos que a maioria de nós foi educada segundo um modelo de pensamento cartesiano, que vigorou no século XX e que ainda se faz presente no início deste. O entendimento da sustentabilidade só é possível com o aprofundamento e a adoção de uma nova maneira de viver e se relacionar com a vida. Essa mudança certamente é visível. Vemos, por exemplo, a área financeira das empresas tendo de entender que suas métricas devem ir além, captar outros fatores, e que o resultado anual pode ser um vício que deve ser tratado em uma perspectiva de longo prazo, porque é como ir bem, ganhar um jogo, mas com risco ampliado de perder o campeonato.

Entrevista Modelo de Gestão (2)A área de celulose e papel, pertencente a um segmento mais amplo, representado pela indústria de base florestal, já segue fortes conceitos de sustentabilidade. A senhora acredita que essa conduta é um reflexo natural de uma sociedade demandante de atitudes e condutas em prol do meio ambiente ou diria que são diferenciais significativos conquistados por essa indústria? Fazendo uma comparação com outros segmentos, é possível posicionar a indústria de celulose e papel à frente dos demais no que diz respeito à preocupação ambiental?

Rosa Alegria – Em nosso ver, existe uma combinação de coisas. Há pressões na sociedade e há a genialidade de pessoas que enxergam para além das vantagens competitivas de uma ação sustentável, ou seja, enxergam o que já mencionamos aqui: a vida. A indústria de celulose e papel certamente está à frente de outros setores e poderá avançar mais ainda se puder olhar mais adiante em sua cadeia produtiva. Talvez os desafios de enxergar para o ciclo da cadeia de fornecedores estejam bem encaminhados, sugerindo a possibilidade de olhar para seus clientes e atuar no que pode fazer de melhor pela sustentabilidade, pela vida. A hora não é mais de uma indústria de ponta preocupar-se, mas sim ocupar-se de desafios em que possa cooperar com suas competências e tecnologias.

Quais países despontam hoje com a presença de líderes que praticam o conceito da Liderança Inovadora para a Sustentabilidade e trazem exemplos que poderiam ser seguidos no Brasil?

Rosa Alegria – Os países mais desenvolvidos, de maneira geral, parecem ter maior preocupação em relacionar inovação com os princípios da sustentabilidade – talvez por perceberem o esgotamento de seus recursos naturais. Não poderíamos, entretanto, afirmar que esse ou aquele país está preparando suas lideranças para enfatizarem tal perspectiva mais do que outros. Pode-se dizer, porém, que há nações que não têm outra opção e não podem prescindir da ênfase em um modelo de desenvolvimento sustentável. O Brasil está entre essas nações. Além disso, há um fator muito interessante entre nós: somos um povo criativo, afável, caloroso; ao adotarmos esta nação como nossa, temos todas as condições de alavancar soluções inovadoras e de mergulharmos na sustentabilidade para a construção do país que queremos.

Confira os 15 desafios globais listados no relatório O Estado do Futuro e as questões que prometem levar a soluções

  1. Desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas. Como o desenvolvimento sustentável pode ser alcançado para todos no combate às mudanças climáticas?
  2. Água. Como todos podem ter acesso a água sem conflitos?
  3. População e recursos. Como o crescimento populacional e os recursos mundiais podem estar em equilíbrio?
  4. Democratização. Como a genuína democracia poderá emergir de regimes autoritários?
  5. Perspectivas globais de longo prazo e decisão. Como tomar as melhores decisões através da integração de sistemas prospectivos globais durante este momento de mudanças aceleradas sem precedentes?
  6. Convergência das Tecnologias de Comunicação e Informação (TCI). Como a convergência das TCIs pode trabalhar a favor de todos?
  7. Exclusão social. Como as economias de mercado norteadas por uma ética social poderão ser encorajadas a reduzir as diferenças entre ricos e pobres?
  8. Saúde. Como reduzir a ameaça de novas doenças e micro-organismos infecciosos?
  9. Educação e aprendizagem. Como a educação pode tornar a humanidade mais inteligente, bem informada e sábia o suficiente para trazer respostas aos desafios globais?
  10. Paz e conflito. Como novos valores e estratégias de segurança podem reduzir os conflitos étnicos, o terrorismo e o uso de armamentos com poder de destruição massiva?
  11. Condição da mulher. Como as mudanças na condição da mulher podem ajudar a melhorar a condição humana?
  12. Crime transnacional organizado. Como evitar que as organizações criminosas transnacionais continuem como atuantes do mais poderoso empreendimento global?
  13. Energia. Como a demanda crescente de energia pode ser atendida de forma segura e eficiente?
  14. Ciência e tecnologia. Como acelerar as inovações científicas e tecnológicas para melhorar a condição humana?
  15. Ética global. Como as considerações globais podem incorporar-se no cotidiano das decisões globais?

Entrevista publicada na revista O Papel / Fevereiro de 2015

albany 728
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