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Silvicultura – Nelson Barboza Leite – A silvicultura e as suas dúvidas!

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Silvicultura – Nelson Barboza Leite – A silvicultura e as suas dúvidas!

Nelson-Barboza-Leite05/11/2014 – Há décadas a silvicultura brasileira vem sendo colocada como a campeoníssima da produtividade em nível internacional. Às vezes, fala-se de custo, mas nem sempre aliado à pomposa produtividade de nossas florestas plantadas, em grande maioria ligadas às indústrias consumidoras. O discurso é sempre em cima da produtividade e pouca preocupação com os investimentos na formação das florestas ,abrigados numa contabilidade cheia de atalhos e bastante generosa. O negócio é ter madeira! E com madeira em abundância, indústrias com recordes de produção, mercado comprador, qual a razão para atrelar altíssimas produtividades aos custos da floresta? Realmente, parecia até então, coisa para algum rebelde ou incrédulo silvicultor.

Esse quadro muito favorável e que prevaleceu por anos, permitiu investimentos em pesquisas florestais , novo avanços tecnológicos e importantes saltos na campeoníssima produtividade. Até diminuir a idade de corte devido às excelentes taxas de crescimento já se cogitara . E novos avanços em transgenia, a mais nova milagreira silvicultural, são anunciados para enriquecer o dia-a-dia de nossas atividades. E é lógico, num ambiente de altíssima tecnologia, querer tratar com cuidado do básico” arroz com feijão” –investir adequadamente nas atividades de plantio e formação das florestas – passou a soar como atraso e falta de modernidade do “pessoal de anotações em caderno”.

Nos últimos anos, para o bem da silvicultura, alguns questionamentos começaram a surgir e destacadamente a produtividade, os custos da floresta e as suas relações de dependência passaram a liderar importantes discussões setoriais. Intensificar-se as conversas visando promover um bom tempero no “arroz com feijão” da silvicultura e vai salvar a pele de muita gente! E aquele silvicultor que suja a bota e toma sol, com certeza, ficará muito agradecido e voltará a ser valorizado! Essa nova postura se deve muito à chegada de investidores independentes voltados às grandes negociações de ativos florestais. Desde então, já não valia só discurso! Florestas de altíssimas produtividades precisavam mostrar a madeira que tinham, de fato.

E nesse novo contexto, sinais do destempero do“ arroz e feijão” se evidenciaram. Florestas de 50 metros cúbicos/ha/ano, quando bem medidinhas, mostraram que não passavam de 30 e as enormes discrepâncias nas comparações dos custos operacionais passaram a preocupar investidores, pesquisadores e grandes consumidores – 50 é muito diferente de 30 e com a elevação dos custos disso e daquilo, onde vai parar nossa competitividade? Isso pode implicar em inúmeros desdobramentos e muitas surpresas. Uma parada de fábrica por falta de madeira é pena de morte para comandantes e comandados.

E para complicar ainda mais a situação, aquela madeira, que por mais cara que fosse, podia ser usada nesses momentos de dificuldades, já não existe mais!!! Esse momento da silvicultura com esses questionamentos colocados na mesa de discussão, obrigará empresas, investidores, profissionais e pesquisadores a um novo repensar dos procedimentos operacionais: escolher o melhor material genético; entender com mais detalhes essa história de clones; plantar com todos os cuidados, adubar com conhecimentos técnicos, fazer manutenções na momento certo, enfim valorizar a silvicultura do” feijão com arroz” e falar de produtividade e custos com realidade.

Há espaço e momento certo para introdução das modernas inovações tecnológicas , e ter acertado no tempero e valorização do ”arroz e feijão” da silvicultura é condição imprescindível para habilitar-se às modernidades tecnológicas e ,aí sim, falar-se em melhorar a competitividade do setor. Conhecer com detalhes a relação do que se gasta para produzir o metro cúbico de madeira, do que se gasta para formar o ativo terra – floresta e do que se gasta desnecessariamente com atividades que não agregam nada aos ativos florestais são ingredientes essenciais para a sustentabilidade da silvicultura brasileira e para não matar do coração empresários e investidores !!!!

* Nelson Barboza Leite é engenheiro agrônomo – silvicultor. Trabalhou em empresas florestais, indústrias, instituições de pesquisas e presidiu a SBS. Atualmente é Diretor Florestal da ECO Brasil Florestas. (Contato: [email protected])

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Sobre o Autor
Nelson B, Leite - Silvicultura
Nelson B, Leite - Silvicultura
é engenheiro agrônomo - silvicultor. Trabalhou em empresas florestais, indústrias, instituições de pesquisas e presidiu a SBS. Atualmente é Diretor da Teca Serviços Florestais e Daplan Serviços Florestais.
5Comentários
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  • Francisco Bertolani
    novembro 6, 2014 at 12:07

    Prezado Nelson:
    Fatos apontados e fatos reais. Após medidas certinhas como vc disse, com distribuição de amostras ao acaso ( doa a quem doer), considerando as bacias de contenção, curvas de nível, depósitos de remanescentes de vegetação, arvores protegidas de cerrado além das medições topográficas das áreas dos talhões – também certinhas; volume comercial…. falam em V4 ( diâmetro comercial mínimo de 4 cm, mas na realidade usam V5 e na operação de corte vai a V6), carreadores de divisão de espécies etc, no final da receita, o volume de madeira está aquém do esperado.

    • Nelson Barboza Leite
      Nelson Barboza Leite
      novembro 8, 2014 at 09:59

      Obrigado pelas considerações. Essas diferenças e outros problemas que impactam nos resultados não significam que nossa silvicultura não seja competitiva e que não se consigam altas produtividades. Com tecnologia e profissionais competentes as empresas conseguem altas produtividades,mas sempre atreladas à capacidade produtiva dos solos. Milagre não se faz em silvicultura!!!

  • HANS KROGH
    novembro 6, 2014 at 17:45

    É com grande prazer que te escrevo. Primeiro por que voce esta mais careca que eu, mas por outro lado voce esta mais conservado. Voltando ao assunto, por entre as linhas(estando eu um pouco afastado do setor) parece que a situação esta séria ou estou equivocado? o que eu tenho sentido é de que a SILVICULTURA, virou um fundo bancário, com muitas inverdades, vendidas por quem não tem a mínima noção da pratica agrícola, mas sim dos rendimentos financeiros e assim mesmo dissociados dos valores reais. Precisamos marcar um jantar. Saudades.

    • Nelson Barboza Leite
      Nelson Barboza Leite
      novembro 8, 2014 at 10:04

      Obrigado pela observações. Na verdade,prezado Hans,esse pessoal obrigou os silvicultores a fazerem contas!!! e muitos não faziam e diziam o que todos falam…. tudo uma maravilha!!! Fazendo as coisas com competência chega-se a bons resultados silviculturais e financeiros!! Forte abraço,

  • novembro 10, 2014 at 17:44

    Muito boa a abordagem. Nem sempre as tecnologias de ponta se pagam. E silvicultor tem que ter lucro. Pesquisa pode ser um investimento a parte, ou deve ser feita por instituições que tem este objetivo. Um “arroz com feijão” bem feito é o segredo para obter bons resultados e não correr riscos desnecessários, colhendo mais e ganhando menos… Muito bom o texto.

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