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Sistema lançado pela ABNT para medição e certificação da pegada de carbono e água de produtos apresenta comparabilidade global

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Sistema lançado pela ABNT para medição e certificação da pegada de carbono e água de produtos apresenta comparabilidade global

24/08/2016 – Um novo selo lançado em abril último pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em parceria com a Carbon Trust e com o apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Embaixada Britânica no Brasil, confere às empresas brasileiras a capacidade de explicitar os benefícios ambientais de seus produtos.

A partir do recém-criado sistema de medição e certificação da pegada de carbono e água de produtos, os players da indústria nacional têm credibilidade para comparar seus produtos com os de competidores internacionais.

Regras-da-ABNT-para-TCC-conheça-as-principais-normasO lançamento do selo resulta de um projeto piloto de criação e desenvolvimento que envolveu 23 grandes companhias brasileiras, representantes de diversos setores industriais, com o intuito de implantar no mercado nacional um sistema para certificar e incentivar padrões sustentáveis de produção, reduzindo as emissões de carbono e realizando um consumo mais eficiente de recursos hídricos.

Na entrevista a seguir, Guy Ladvocat, gerente de Certificação de Sistemas da ABNT, e João Lampreia, gerente geral da Carbon Trust no Brasil, discorrem sobre o processo que culminou na concretização da certificação e ressaltam a importância do selo às empresas que almejam incrementar sua eficiência operacional, reduzir custos e fortalecer a competitividade no mercado global.

Como surgiu a iniciativa de lançar o sistema de medição da pegada de carbono e água de produtos no Brasil?

Guy Ladvocat - ABNTGuy Ladvocat, gerente de Certificação de Sistemas da ABNT – A ABNT tem uma tradição muito grande na área de certificação. Temos também parceria com o MDIC, o que já resultou na participação em uma série de projetos e reuniões relacionadas à questão das mudanças climáticas e sustentabilidade. Quando o MDIC recebeu a proposta de convênio com a Embaixada Britânica, a partir da demanda da consultoria Carbon Trust para desenvolver o programa no Brasil, convidou a ABNT para desempenhar a função de gestora do projeto. Ao todo, o processo de desenvolvimento do programa levou dois anos.

Esse tipo de parceria é prática habitual da Carbon Trust em outros países? Como é a atuação da empresa no mercado global?

João Lampreia, gerente geral da Carbon Trust no Brasil – A Carbon Trust foi criada em 2001 pelo governo britânico como uma entidade sem !ns lucrativos dedicada a fazer o meio de campo, de maneira independente, entre todos os setores que formavam a economia do País no intuito de acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. Até 2010, trabalhávamos exclusivamente no Reino Unido, desempenhando um papel muito importante nas políticas de inovação e eficiência energética a partir de grandes programas que envolvem o setor privado e o governo. Em 2010 houve uma mudança no governo britânico, o que nos deixou duas opções: nos transformarmos em uma entidade governamental ou nos desprendermos completamente para atuar como uma empresa privada independente. Optamos pela segunda alternativa, o que ampliou nossos trabalhos para o mundo inteiro. Então, desde 2010 trabalhamos em basicamente todos os continentes, com escritórios na China, no México, na África do Sul e no Brasil, além da Inglaterra e da Escócia. Trabalhando com o governo e o setor privado, temos uma atuação muito mais ampla. Em paralelo aos benefícios ambientais, temos um viés muito forte de mostrar como lucrar com a redução de emissões.

João Lampreia - ABNTNão é sem motivo que, na Europa, nossos programas são majoritariamente financiados pelo setor privado. Ao longo dos últimos 15 anos, cada libra ou dólar investido por nossos clientes resultou em retornos muito maiores. Nosso trabalho no Brasil teve início em 2012, por meio da Embaixada Britânica, que tem um fundo destinado à redução das emissões no País. De lá para cá, já desenvolvemos 15 projetos com o governo brasileiro, incluindo participações em diferentes ministérios, como o de Minas e Energia, o do Meio Ambiente e o da Indústria e Ciência & Tecnologia. Basicamente, nossa função é ajudar o governo brasileiro, como outros governos do mundo, a desenvolver projetos de sustentabilidade, seja por programas de redução de emissões, seja por políticas de incentivo a segmentos que buscam maior eficiência.

Trata-se de uma operação mista.

Como funciona o sistema de medição desenvolvido recentemente no Brasil? Como a metodologia é implantada?

Ladvocat – A empresa deve fazer uma medição de quanto Gás de Efeito Estufa (GEE) emite ou quanta água gasta ao produzir determinado item, podendo escolher o produto que deseja mensurar e identificar ao longo de todo o seu ciclo de vida. Em seguida, submete esse processo à ABNT, responsável por verificar a medição apresentada.

Na prática, recolhemos todo esse material que a empresa produziu e checamos se tudo foi feito corretamente, avaliando os dados, os registros e as evidências usadas para a medição. Depois disso, damos um parecer final. É importante esclarecer que nosso parecer não se refere ao GEE emitido ou uso da água, mas sim à adoção da metodologia. O limite máximo de emissão de GEE ou de água para que cada produto obtenha a certificação é previamente estabelecido. Isso signi.ca que as empresas abaixo desse limite irão obter a certificação, ao passo que as outras serão informadas e orientadas a adotar as devidas ações corretivas para se adequarem.

Qual é o prazo de validade do selo?

Ladvocat – O selo tem validade de dois anos. Ao longo desse período, contudo, outras empresas podem se interessar pela certificação e os valores máximos estipulados podem ser alterados. De qualquer forma, o selo vale pelo período contratado. Os valores atualizados servirão apenas para as empresas que se interessarem em obter a certificação naquele momento ou para as que desejam renová-la.

Qual é a importância desse tipo de certificação? Quais são as vantagens conferidas às empresas que obtêm o selo?

Ladvocat – A grande vantagem na obtenção do selo consiste na identificação dos pontos de melhoria do processo fabril, de modo a levar à redução das emissões e à maior eficiência operacional, com redução de custos, inclusive. O acesso a mercados mais exigentes, incluindo externos, mais atentos às questões de meio ambiente, é mais uma vantagem competitiva significativa. Certamente a certificação facilita a entrada nesses mercados.

Outro detalhe importante: a tendência do programa de ser evolutivo. Ao longo do tempo, a ideia é reduzir os valores máximos permitidos de emissão de GEE, no intuito de incentivar as empresas a emitir cada vez menos gases em seu processo e, assim, diminuir cada vez mais o impacto ao meio ambiente.

Lampreia – É importante esclarecer que o pensamento de que se trata de “mais uma certificação ou um selo ambiental que não resultará em nenhum retorno à em presa” é completamente equivocado. Pelo contrário, o selo de pegada de carbono e água é apenas o primeiro passo para uma empresa entender as próprias emissões, que estão absolutamente atreladas a outros aspectos relevantes à eficiência operacional e à economia de custos fixos na fabricação de produtos, a exemplo dos gastos de energia ao longo de toda a cadeia produtiva. O selo contribui de fato com uma economia mais sustentável, ou seja, que visa a ganhos em diferentes frentes, incluindo ao meio ambiente e ao aspecto financeiro do negócio. Em resumo, é um tipo de certificação que permite, constantemente, que os processos se tornem mais eficientes e menos custosos para as empresas.

Como está o interesse da indústria brasileira a respeito do novo sistema de medição e certificação? Algum segmento vem se destacando em relação aos demais?

Ladvocat – Com o lançamento do programa e em função do nosso trabalho com o MDIC, fizemos um projeto piloto em que demos prioridade aos setores atrelados ao Plano Indústria, incluindo os de alumínio, vidro e cimento, assim como de alimento e aço.

Ao final do processo, tivemos a participação de 23 empresas no projeto. Desse total, 15 conseguiram obter a certificação e as demais estão colocando os ajustes em prática. O setor de celulose e papel chegou a participar de algumas reuniões e acompanhar alguns processos, mas não submeteu nenhum produto ao projeto, mas acredito que deve participar em breve. Após o lançamento, diversas empresas já nos procuraram para receber mais informações e demonstraram interesse em obter o selo. A certificação ainda é uma novidade que deve se desenrolar com mais força assim que a divulgação das próprias empresas participantes do projeto piloto tiver início. Isso deve causar um impulso positivo na demanda.

O selo lançado no Brasil pode ser comparado aos de outros países? A certificação tem validade mundial?

Lampreia – A Carbon Trust tem três braços de atuação global: Consultoria Estratégica para Governos e Setores Privados; Medição e Certificação, além de Tecnologia. Na área de Medição e Certificação, vale destacar que em 2008 criamos o primeiro selo do mundo de pegada de carbono de produtos, o Carbon Trust Label, mundialmente conhecido. A partir de 2010, começamos a criar selos similares, com governos locais e associações de indústrias. Entre os selos que criamos mundo afora, estão os do Brasil, China, Taiwan, México e Cingapura. Na prática, ajudamos as empresas desses países a criar governança em torno do selo, capacitamos os stakeholders locais a utilizar as metodologias internacionalmente aceitas e finalizamos nosso trabalho sem nenhum vínculo comercial com o selo. É importante esclarecer que a metodologia é relativamente simples.

O trabalho da Carbon Trust está mais atrelado à questão gerencial, esclarecendo, por exemplo, como atingir o público-alvo e mostrar valor às empresas. Neste trabalho realizado ao longo dos últimos anos, criamos um movimento global de selos absolutamente comparáveis. Fizemos isso justamente por notar a bagunça generalizada nesse tipo de medição ao redor do mundo – cada país ou empresa fazia a medida de um jeito diferente, apesar dos padrões globais bem estabelecidos.

Ao fazer diferentes tipos de medição, perde-se em inúmeros aspectos, a começar pela capacidade dos selos de compartilharem informações e as próprias ferramentas de medição. Acreditamos que, quanto mais comparabilidade cria-se entre os selos, maior a capacidade de empresas de diferentes partes do mundo compartilharem ferramentas e etapas do processo de medição, levando a uma consequente redução de custos na realização do método e facilitando a obtenção da certificação.

O selo tende a consolidar-se na indústria nacional e contribuir com segmentos que já adotam processos fabris sustentáveis? Qual é a contribuição da certificação para a almejada economia de baixo carbono?

Ladvocat – Acho que a tendência é de se consolidar, sim, até porque não temos muita alternativa contrária a esse caminho, já que o programa está bastante difundido, como demonstra a atuação da Carbon Trust em inúmeros outros países. O projeto foi montado justamente para facilitar o processo de reconhecimento mútuo das certificações concedidas pelo Brasil e por outros países. De certa forma, acredito que isso ajuda a atrair mais empresas a participarem. Estamos trabalhando com o Inmetro também, para fazer com que esse programa esteja dentro do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade, estendendo a oportunidade a outros organismos de certi”cação. Em pouco tempo, isso deve estar bastante difundido e contribuindo bastante com a melhoria do desempenho e da participação da indústria brasileira no mercado internacional.

Serviço

Empresas interessadas em obter a certificação devem contatar a ABNT pelo portal www.abntonline.com.br/sustentabilidade ou pelo telefone (21) 3974-2322 e falar com Isabel ou Camila.

Fonte: Revista O Papel / Junho de 2016

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